6 de mai de 2010

Trajetória

Com os cadarços desamarrados, o par de sapatos espera. Espera até que o sonho chegue e embalado no sono ele corre pela noite e pelos cantos do quarto, cria primaveras e outonos, espalha folhas pelo chão, fala de amor, solidão, do mundo, de acender e apagar a vida.

Adaptável na sua vida de sapato busca a luz da cidade que escorre leitosa pelo vidro da janela, e passa a caminhar por entre pessoas, ruas e céus até então desconhecidos.

Cansado da peregrinação encontra um canto confortável numa esquina qualquer para aliviar os pés que doem, e caminha agora descalço, observando na sola do sapato as lembranças dos caminhos. Pondera ainda entre seguir ou voltar, mas vê que o laço que o prende àquela estrada e àquela sola de sapato é um velho sonho que explode todas as manhã no centro do quarto.