28 de fev. de 2010

29 de jan. de 2010

Disco-Voador

Homenagem as vítimas do comunismo - Praga, República Tcheca

Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.
Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Disco Voador-Fausto Fawcet

2 de dez. de 2009

Mário Schenberg


Físico, crítico de arte, pernambucano, político, ousado, intuitivo, humano. Sem dúvida um dos maiores físicos do século XX (e ele é brasileiro, acreditem!), o que é garantido pela versatilidade e habilidade de trilhar por, praticamente, todas as áreas do conhecimento. Sagacidade não lhe faltava para dar pitacos e escrever artigos sobre obras de Alfred Volpi, Lasar Segall, Picasso, Cândido Portinari, entre outros vários. Sua contribuição para a Física vai do entendimento do colapso de uma estrela, passa pelas propriedades das partículas elementares, relatividade geral e matéria condensada. Sua vida inteira foi espantosamente universal. Foi deputado estadual por duas vezes e também cassado por ter idéias “livres”. Perseguido pela ditadura foi proibido de entrar no campus da universidade e afastado de qualquer centro de pesquisa. "Há coisas que a gente não deve esquecer, porque se a gente esquece, perdoa; e certas coisas não devem ser perdoadas”, diria ele.
Foi professor universitário e excêntrico quando se tratava de horários e maneiras de ensinar. Gostava de fazer suas pesquisas de madrugada e as provas eram realizadas em sua casa, em seu sofá, longe dos moldes tradicionais. Com o lema: tudo que é humano, não me é estranho, cumprimentava com a mesma dignidade o porteiro do prédio, Einstein, Fermi ou Fernando Henrique Cardoso.
Um ser humano apaixonante que buscava entender a sua vida por todos os lados e relacionava o tudo com o todo de maneira excepcional. Com seu modo muito particular de viver construiu, é bem verdade, sua própria realidade e com idéias originais e criativas buscou melhorar e contribuir para o país em que vivia. Das contribuições que ficam, estão as palavras do amigo e pesquisador João Barcellos que o Mário é “um prelúdio ao concerto da Vida, que nem sempre nos aguarda em cada esquina, em cada aeroporto. “

1 de dez. de 2009

Irreversível


O corpo secou
Para que meus
Medos
Se afogassem
Apaguei as luzes
E sonhei
Que pela manhã
Não escorria
Em mim
Nenhuma esperança.

30 de nov. de 2009

Teça

Joan Miró


"Um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro: de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzam os fios de sol de seus gritos de galo para que a manhã, desde uma tela tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão".
João Cabral de Melo Neto

26 de nov. de 2009

Reflexão

"Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!"

Guimarães Rosa

7 de nov. de 2009

João e Maria

João
Sempre foi João
Maria
Sempre Maria
Um dia o amor chegou
João tornou-se
João e Maria
Maria
Maria e João
E hoje
Eles não sabem
O que fazer com o
e.

4 de nov. de 2009

O equilibrista


Tocávamos clarinete na corda bamba
subíamos às altas torres do Egito
passeávamos de pára-quedas
no sol sem fim dos dias de fogo
subíamos à capota do avião
por cima das nuvens
recitávamos poemas à lua
tocando nela.
Andávamos nos parapeitos dos edifícios
de um pé só na balaustrada dos abismos
não caíamos dos fios metálicos do circo
andando de cabeça para baixo
nem do alto da torre Eiffel correndo sonâmbulo.
Só na vida é que não nos equilibrávamos.

Francisco Bandeira de Mello

29 de out. de 2009

Ora iê iê ô...

Ana Teles

Tive uma infância como qualquer garoto. Subia em árvores, soltava pipa, criava peixe como se fosse gente. Gostava de andar com os pés descalços e correr na rua até a hora da minha mãe gritar e me pedir pra tomar banho. A vida lá, com pitangas e jabuticabas, não era melhor nem pior que a de hoje. É bem verdade que muita coisa mudou. A cidade, de poucos mil habitantes para uma com milhões de pessoas, sem contar o ambiente, objetivos e responsabilidades. Mas quando pude, não hesitei em me mudar, pois sou movido por transformações e por mais que doam, acredito que é esse o nosso destino. Alguns fatos nos entristecem, mas nunca duram muito tempo. Machucam e depois vão abrandando. Gosto de dizer que a vida tem movimento próprio e o que era dor e saudade se restringe a um amontoado de lembranças e objetos.
E aqui vou construindo mais uma parte da minha vida, com amigos, amores e minhas atividades diárias. Vou sabendo que não há nenhuma segurança no caminho, nenhum porto ou salvador existe, e que a vida da gente ora é consolo ora é agonia e medo. Sigo meus dias confiando que amanhã seja um dia melhor, onde com amor eu possa fazer minhas descobertas e mudar de rumo quando for preciso. A estrela mais linda, hein? Tá no Gantois. E o sol mais brilhante, hein? Tá no Gantois. A beleza do mundo, hein? Tá no Gantois. E a mão da doçura, hein? Tá no Gantois. O consolo da gente, hein? Tá no Gantois, cantaria Maria Bethânia.

26 de out. de 2009

Felicidade


- Não. Não. A felicidade não é simples. Não há receita: seja feliz em uma semana. Não adianta buscá-la. Ela é bem sem destino, sem origem, sem cria. Mora nas reticências. Quando não vaza pelos cantos, transborda. Sim, felicidade é excesso de alegria. Não, alegria é falta de dor, dor miúda. Felicidade é forma. Deforma a felicidade e inventa. É como arte. Não. É a própria arte. Tem vida própria. Um soneto. Um caminho. Caminho de que meu Deus? Esqueça caminho. Esqueça de deus. É volta, curva, travessia. É atravessar o mundo, cortá-lo ao meio. Não, é coragem. Sim, é morte. Não é fuga. Sim, é abandonar-se.

Cada vez mais acredito que a felicidade é arrancar um punhado de nuvens do estômago e soprar...