18 de fev. de 2011

Verão

Convalescente,
Do azul dos guarda-chuvas
Viu o colorido
Que caía do céu cinza-chumbo
Daqueles olhos
Encharcar nossas desnaturezas
Sem saciar a sede
Desta nuvem infinita.

22 de jan. de 2011

No Rules

Criança Morta por Portinari


As Leis da Física se responsabilizam em entender a natureza e seus fenômenos. Seja matéria ou energia, suas relações e conseqüências. Uma Lei Física precisa ter sua validade garantida. Pra isto usa-se o Método Científico, construção humana, com suas regras e seus motivos, que é capaz de refutar, integrar ou apoiar um determinada teoria, uma lei. Eis, então, que surge engolfado na fragilidade e na violência dos dias o grande escuro humano, posto que não há geometria que descreva tanta miséria e nem este espaço-tempo que hoje amanhece em azul-rosa claro.

8 de jan. de 2011

Dois dias

No primeiro dia discutiram sobre Einstein, física quântica e sobre a diferença entre chamar a alma de Alma ou de assumi-la apenas como pequenos impulsos elétricos que mantêm as pessoas vivas. Concluíram que o mundo era apenas uma grande explosão de matéria - assim como tinham concluído outras pessoas muito mais inteligentes que eles, também muitos anos antes. Perceberam então que não tinham chegado a conclusão nenhuma e que qualquer tipo de divagação acerca do sentido da vida ou seria inutilmente cansativa ou penderia para um lado místico-religioso em que não acreditavam completamente.

No segundo dia (um dia muito mais Romântico) começaram a divagar sobre como o mundo era um lugar incrível de se estar e como essa experiência que chamavam de Vida podia ser unitariamente valiosa. E como os seres humanos foram geniais ao aproveitarem um desses intervalos entre explosão e contração de matéria para inventar aquilo que chamariam de Humanidade. Sobre como as pessoas podiam se tornar experiências inacreditáveis de descoberta e relacionamentos, e de como a mente humana era capaz de se sustentar e se desenvolver a ponto de produzir o que chamariam mais tarde de Sentimento. Estavam apaixonados pela vida. E felizes por poderem fazer parte dela.

Olharam para o lado e viram a lista de e-mails não lidos e de afazeres não resolvidos de um dia corrido de trabalho. A conclusão à que chegaram, então, é que tudo ali era tão relativo e tão ridiculamente banal que poderia ser facilmente substituído - por outros afazeres, por outros e-mails, por outras rotinas. Mas não por outra paixão. Sabiam que, no fundo, aquelas poucas palavras sonhadoras que haviam trocado em meio a uma turbulenta tarde de trabalho entregavam à Vida maior sentido, aos Sentimentos maior verdade e à Alma maior nobreza, afinal.


Fabrício Teixeira

Sim, de novo.


Não era adepto de sol, mas aquele iluminava e era complacente com a chuva que caía e fecundava a terra já desgastada. Se sentia feliz por está ali, com quem estava e onde estava. Exatamente, naquele instante.

29 de dez. de 2010

É tarde.


Na calada da noite
Cala o tempo
Com o gemido de
Um sol poente
Se pondo onde
A vida encontra
A vida por dizer.

11 de dez. de 2010

Mundo

Documentário Nascidos em Bordéis - Zana Briski e Ross Kauffman


O mundo, O mundo
O mundo é
Enfim
O mundo
Em mim
Ô mundo
Que no ser
Desejoso
Quer estar
Sem fim.

28 de nov. de 2010

Hoje é o sempre.


Não entendo o que me leva por caminhos desconhecidos, curvas tracejadas e sinuosas, e muito menos a vontade que tenho de vê-los e cheirá-los tal qual cão faminto. Talvez se assemelhe ao trabalho de um grande perito, que analisa cada ângulo da cena de um crime até decodificá-lo, de modo que o que era mistério, ilusão, se torne ao alcance das mãos. Mas em matéria de vida é mais complicado, é lento, tem morada no porvir. Um porvir do porvir, que não vem nunca, nem virá, e que é alimentado pelo instinto de proteção, consolo, abrigo, numa réplica de nosso estado embrionário. Por vir de um azul, desorienta e encanta, tendo na dúvida uma beleza misteriosa, que quando aliada ao tempo (implacável) nos tira qualquer orgulho ou presunção e nos mostra que a arte de (sobre, com, como) viver é reinventar todos os dias. Somos nossas reinvenções e quando reinventamos mais amor, mais atitudes, mais livros, mais música e mais liberdade, o presente, o passado e o futuro são desmistificados pra, então, as cortinas da vida se abrirem pra que dê início a um grande espetáculo que, por si, não sabe por que o é, mas existe e espetacularmente vive.Viverá.

26 de nov. de 2010

Premissa

Praga, a noite.

Há coisas que só os olhos veem, pra que o coração fique ali, quietinho, em estado de amanhecer em lugar nenhum.

24 de nov. de 2010

A vida, uma bela arte.

Por Gauguin-Paysage

A morte sempre foge as nossas tentativas de entendê-la, as palavras não dão conta de explicar a morte, no entanto não podemos evitar a morte e nem nos calar sobre ela. A representação não nos deixar sair daquilo que pode ser pensado, é um espécie de linearidade burra que não nos deixa, absolutamente, construir a desconstrução. Deve ser por isso que para falar da morte repetimos frases prontas, explicações que herdamos da nossa família, das religiões, do nosso contexto cultural. O que Deleuze propõe é que abandonemos essas frases feitas sobre a morte para criarmos o nosso próprio texto sobre ela. É como se tivéssemos que explicar a morte sem nunca ter ouvido falar dela. É como se fôssemos os primeiros a inventar um significado para ela e fazer da morte um acontecimento, isto é, um belo movimento de vida. A morte como horizonte.

Daniel Lins – filósofo contemporâneo

20 de nov. de 2010

Do cotidiano

Do genial, Vik Muniz.


Enquanto a toalha cobre 1/3 do espelho
E Neruda me espia
Com seu
Rios Invisíveis
No varal
As roupas esperam
Os primeiros raios de sol
E enquanto lembranças de viagens
Desenham-me uma
Ponte de silêncio e saudade
Praga,
Roma,
Munique
A porta entreaberta
E o armário vazio
Alertam-me:
8 tomates, 300g de queijo, azeitona
Café, 2 mangas, alecrim
E ainda dizem que
Não se faz poesia
Com acontecimentos.